23 de fevereiro de 2015
O peso do poder
Figura emblemática do Carnaval, o Rei Momo teria sido inspirado em uma deusa grega homônima. Protetora dos escritores e poetas, em uma das mãos segurava uma máscara e na outra uma boneca. Crítica e sarcástica, foi instada certa vez a opinar sobre as obras de Zeus, Atena e Poseidon. O primeiro criou o homem, a segunda uma casa para o homem morar e o terceiro fez o touro. Nada agradou a deusa. A criação de Zeus carecia de uma janela no seu coração, que permitiria ao semelhante enxergar o que ele sentia e planejava; a casa de Atena também não tinha rodas de ferro em sua base, o que impedia a sua mobilidade; enquanto o touro, por não ter olhos abaixo dos chifres, não conseguia avistar o seu alvo no momento do ataque. Irritados com as críticas, eles a expulsaram do Olimpo. ]
De volta à realidade, o Rei Momo nunca será expulso da festa; ao contrário, é o primeiro a chegar. Recebe a chave da cidade, que “governa” durante o período carnavalesco. No Brasil, o primeiro registro de uma performance momesca é de 1910, no Rio de Janeiro, e teria sido feita pelo palhaço negro, Benjamim Oliveira, durante uma atuação no Circo Spinelli. Anos depois, em 1933, foi criado pelo artista Hipólito Colomb o boneco de papelão Rei Momo I e Único, por sugestão do cronista carnavalesco Edgard Pilar Drumond e do jornalista Vasco Lima. No ano seguinte, junto com outros profissionais do jornal A Noite, eles decidiram eleger o personagem. O escolhido foi o cronista de turfe Moraes Cardoso. Nas ruas, ele era saudado com confetes, serpentinas e lança-perfume.
O jornalista gostou tanto da função que teve reinado vitalício, quer dizer, até 1948, quando morreu. Passaram-se 20 anos, até que em 1968 uma lei estadual oficializou a eleição. Outras cidades também adotaram a prática. Além da silhueta rechonchuda, que representava a fartura da “terça-feira gorda”, que antecede a quarta-feira de cinzas, o candidato precisava ser muito simpático e esbanjar alegria.
No decorrer dos anos, outras cidades passaram a realizar concursos locais. Aos quesitos simpatia e alegria têm sido agregados outros, como capacidade de comunicação e irreverência. A necessidade de ser gordo vem sendo abandonada nos últimos anos. O precursor é o carnaval carioca, que desde 2004 liberou a exigência de peso mínimo para os candidatos ao posto, como uma medida para não estimular a obesidade.
Corte momesca
Rei não reina sozinho. Durante o pleito para eleger o Momo, também ocorre a eleição da rainha e das princesas para formar a corte real. Em geral, os concursos são organizados por instituições carnavalescas ou ligas de carnaval. Em São Paulo, o evento tradicional foi organizado pela São Paulo Turismo (SPTuris, empresa municipal de turismo e eventos). Entre os requisitos para ser “nobre”, era preciso ser brasileiro nato ou naturalizado, residir na cidade de São Paulo e não ter sido eleito para a Corte nas últimas três edições. Além disso, o candidato precisa ter peso mínimo de 110 quilos, idade mínima de 18 anos e máxima de 55 anos. Já a candidata ao titulo de Rainha precisa ter idade mínima de 18 anos e máxima de 32 anos. As classificadas em segundo e terceiro lugar, respectivamente, levam as coroas de princesas.
O representante da folia paulistana foi Valter Pinto, 38, mais conhecido como Brigadeiro, que levou o título de Rei Momo após a sétima participação no concurso. A nova Rainha coroada foi Theba Pitylla, 30, que participou pela primeira vez, assim como a Primeira Princesa, Katia Salles, 29; a Segunda Princesa, Cintia Mello, 27, já havia sido Princesa na edição de 2012. Segurança “nas horas vagas”, o novo rei do Carnaval de São Paulo é figura popular na região do ABC. O título paulistano vem coroar anos de empenho e militância no samba. “Desde 2006 eu participo dos concursos. O título é reconhecimento do meu trabalho e esforço. Muitas pessoas trabalham pelo samba, mas estão no anonimato”, afirma
Vida de candidato não é fácil. Durante os últimos oito meses, Brigadeiro se empenhou em sua campanha. O nome artístico é devido ao seu temperamento aguerrido, nada a ver com o docinho popular. O combustível para continuar se candidatando em São Paulo foi a eleição de 2007. Na ocasião, ficou em 2º lugar. Perdeu para Benedito Tadeu Teles, membro da X-9 Paulistana, candidato considerado figura conhecida no samba, visto que a sua família tinha tradição, seu pai Paulo Telles foi Rei Momo sete vezes. Pouco conhecido dos paulistanos, Brigadeiro reinou no último carnaval de Santo André, no ABC Paulista. Tem dois reinados lá e dois na vizinha Diadema.
Dificuldades
Como todo aficionado, Brigadeiro não esconde que faz sacrifícios pelo samba. Já chegou a perder emprego por conta da paixão, diz que não acabou nenhuma união por causa do samba, mas já finalizou diversos namoros pela sua paixão. Chega a época do carnaval, se a pessoa não entende, perde, segundo ele.
As fichas ainda não caíram para ele. “Fui surpreendido. Quem foi, testemunhou o que ocorreu lá. O público ovacionou. Fiquei muito emocionado. E olha que tive de improvisar. O sapato estava escorregando, precisei passar um esparadrapo embaixo da sola. Nós do samba somos incríveis. A gente improvisa aqui, ali e a coisa acontece. É muita luta. O público não sabe o que ocorreu nos bastidores”, expõe.
Como é de se imaginar, nessa época, o assédio das mulheres aumenta. “Eu tenho o pé no chão, não sou mais um menino. Sou um cidadão de quase 40 anos. Já fui casado duas vezes, tenho uma filha de 17 anos, muita responsabilidade”, diz Brigadeiro. Segundo ele, as pessoas acreditam que é uma bagunça no mundo do samba, mas não é, existe muita responsabilidade nesse meio.
Momo e o profano
As especulações sobre a origem do carnaval antecedem a Era Cristã. Acredita-se que as celebrações egípcias em agradecimento à colheita farta foi um indicativo dos primeiros carnavais. Na terra dos faraós, as homenagens eram dedicadas à Ísis, deusa da fertilidade. Há registros de que o povo pintava o corpo e usava máscaras para espantar os demônios e evitar más colheitas. Gregos e romanos também realizavam festas semelhantes em agradecimento às divindades. Dionísio (Baco), deus do vinho, por exemplo, era festejado por gregos e romanos. O deus servia de inspiração à farra e ao erotismo do período.
Na Roma Antiga, eram realizados festejos em honra ao deus do tempo, Saturno. Denominadas saturnais, as comemorações reuniam pessoas de todas as classes sociais. Durante as festividades, o soldado mais bonito representava a deusa Momo. Ele era coroado rei; e nos três dias que durava a festa era tratado como a mais alta autoridade local, sendo o anfitrião de toda a orgia. Ao término da festividade, o “Rei Momo” era sacrificado no altar de Saturno. Posteriormente, passou-se a escolher o homem mais obeso da cidade, para servir de símbolo da fartura, do excesso e da extravagância.
Posteriormente, a Igreja Católica combateu os festejos carnavalescos e tentou, em vão, impedir as saturnais, contrárias à moral cristã. Gregório I resolveu oficializar o carnaval no calendário eclesiástico em 590. Na Idade Média, os festejos passaram a ser realizados entre o dia dos Reis Magos, em janeiro, até o início da Quaresma – período de 40 dias que antecede a Páscoa, dedicado ao jejum e às orações. A quarta-feira de cinzas tornou-se o dia do adeus aos prazeres da carne.
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